Energia: o Novo Lastro do Poder Global

Data center e subestação elétrica iluminados à noite, conectados por linhas de transmissão a uma usina ao fundo.
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Retrato de Eduardo Ferreira Lima Eduardo Ferreira Lima

Energia: o Novo Lastro do Poder Global

Por que as Big Techs estão se curvando à Velha Economia

Em setembro de 2024, a Microsoft fez uma coisa que teria soado absurda cinco anos antes. Reservou, por vinte anos, a produção futura de uma usina nuclear desligada. São cerca de 835 megawatts de um reator que a Constellation pretende religar sob um nome novo, Crane Clean Energy Center. E aqui vem o detalhe que prende a atenção: esse reator fica no mesmo complexo do vizinho mais mal-afamado da história nuclear americana. O Unit 2 da usina de Three Mile Island, na Pensilvânia, palco, em março de 1979, do mais grave acidente nuclear comercial dos Estados Unidos.

Antes que a história vire lenda, vale separar os dois reatores, que são fáceis de confundir. O reator do acidente foi o Unit 2, que segue desligado e em desmontagem. O que a Microsoft ajudou a ressuscitar é o vizinho ao lado, o Unit 1, uma máquina que rodava normalmente até 2019, quando foi fechada por razões econômicas, num mercado pressionado pelo gás barato. A Microsoft não comprou o fantasma. Reservou a casa ao lado do fantasma. E ela ainda nem voltou a funcionar: o religamento depende de obras e aprovações, com retorno pretendido pela Constellation pra 2028, se tudo isso avançar.

Se isso parece estranho, é porque é. E não é caso isolado. É a primeira jogada de um tabuleiro maior, em que empresas de tecnologia, geradoras de energia, reguladores e países inteiros disputam a mesma coisa. As Big Techs estão, neste momento, fazendo algo que contraria duas décadas de discurso: estão se curvando à Velha Economia. Operadoras nucleares, concessionárias, produtores de gás, até usinas de carvão que estavam sendo aposentadas. Porque descobriram algo que poucos previram: inteligência artificial não roda em cima de ideias. Roda em cima de elétrons. E elétrons têm que chegar fisicamente ao lugar certo, no instante em que são consumidos.

Ilustração editorial aérea do complexo nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia, cercado pelo rio ao entardecer.
Ilustração editorial do complexo de Three Mile Island. O acordo da Microsoft está ligado ao TMI-1, fechado por razões econômicas em 2019, e não ao TMI-2, reator do acidente de 1979. O retorno pretendido pra 2028 ainda depende de obras e aprovações.

E a Microsoft está longe de ser a única

Poucas semanas depois, o Google fechou com a Kairos um acordo por até 500 megawatts de futuros reatores modulares, com a primeira unidade pretendida, não garantida, pra 2030. A Meta assinou um contrato de vinte anos com a usina de Clinton e, depois de uma chamada por novos projetos, anunciou acordos com Vistra, TerraPower e Oklo que, segundo a empresa, podem apoiar até 6,6 gigawatts de capacidade nuclear nova e existente até 2035. Larry Ellison disse numa teleconferência de resultados que a Oracle projetava um data center de mais de 1 gigawatt num local associado a três reatores modulares, mas a empresa não identificou publicamente o projeto, o operador nem o cronograma. O padrão é claro mesmo quando um caso específico ainda é só promessa.

Repare no que essas empresas têm em comum. São companhias de software, acostumadas a crescer copiando código e atualizando modelos à distância, de repente reservando por décadas a produção de usinas que, em alguns casos, ainda nem existem. Por quê? A resposta aparece quando você olha duas coisas que a tela esconde: o que elas de fato compraram, e o descompasso de tempo que ninguém vê.

A verdade física que a tela esconde

Existe uma narrativa confortável sobre a IA, toda etérea e leve, feita de inovação, produtividade e criatividade. Mas quando você puxa a cortina, encontra uma realidade pesada e presa ao território. IA não vive na nuvem. Vive em data centers: galpões cheios de servidores, refrigeração e geradores, ligados a uma subestação, que depende de linhas de transmissão, que precisam encontrar geração no sistema elétrico. Em poucos segundos, uma ação aparentemente imaterial atravessa uma cadeia de ativos pesados e fixos.

O primeiro impulso é medir esse peso com um número grande. Em 2024, os data centers consumiram cerca de 415 terawatts-hora de eletricidade no mundo, algo perto de 1,5% da eletricidade global, segundo a Agência Internacional de Energia. No cenário-base da agência, esse consumo pode chegar a aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030, mais que o dobro em seis anos, pouco mais que o consumo atual do Japão. E, no entanto, mesmo depois desse salto, os data centers ainda responderiam por pouco menos de 3% da eletricidade mundial. Olhando o planeta inteiro, a conta parece administrável.

O problema é que nenhum data center se conecta à média do mundo. Cada instalação precisa ser ligada a um ponto específico da rede, e um grande campus pode concentrar centenas de megawatts, chegando perto de um gigawatt num único lugar. O que some na média global reaparece inteiro no ponto de conexão. Terawatts-hora medem energia acumulada ao longo de um ano. Megawatts e gigawatts medem potência: a intensidade que precisa estar disponível naquele ponto exato, naquele instante. O total anual do planeta não diz se uma concessionária consegue ligar um novo campus numa terça-feira à tarde.

Guarde o nome do que realmente importa nessa corrida: potência conectável. Não é toda a geração de um país, nem a capacidade anunciada por uma usina. É a carga que pode de fato ser ligada a um ponto da rede, com os reforços necessários, dentro do prazo do projeto. Só que não foi isso que a Microsoft comprou em Three Mile Island. O contrato de preço fixo ajudou a viabilizar o retorno de geração firme a uma rede onde a empresa já opera data centers. A eletricidade de Crane vai entrar na PJM e corresponder ao consumo regional da Microsoft, sem tomada exclusiva nem ligação direta entre a usina e um campus. Foi um atalho no relógio da oferta, não uma reserva privada de capacidade da rede.

Dois relógios que nunca se acertam

Porque tem o relógio. Ou melhor, tem dois, e eles andam em velocidades diferentes. No relógio da computação, uma empresa levanta capital, encomenda chips e ergue um data center em dois ou três anos. No relógio da rede, é preciso estudar o pedido de conexão, reforçar subestações, encomendar transformadores que podem levar anos pra chegar e, às vezes, construir linhas que ainda não existem. O segundo é quase sempre mais lento, e o resultado é quase cômico: o prédio fica pronto antes da tomada.

A Agência Internacional de Energia estima que cerca de 20% da capacidade planejada de data centers pode atrasar se os riscos de conexão à rede não forem resolvidos. E a pressão sobre o sistema é nova. Depois de um longo período com a demanda elétrica americana praticamente parada, crescendo perto de 0,1% ao ano entre 2005 e 2019, o consumo voltou a subir. Em 2025, cresceu 2,1%. A NERC, que avalia a confiabilidade da rede na América do Norte, elevou em um único ano sua projeção de crescimento do pico de verão na região até 2035, de 132 para mais de 224 gigawatts. Mas a própria NERC avisa que projetos atrasam, são cancelados e tornam as previsões voláteis.

Tem ainda uma característica da IA que torna esse descompasso mais sensível. Treinar um modelo grande leva semanas, às vezes meses de processamento. Circula por aí a ideia de que uma queda de energia apaga tudo e obriga a recomeçar do zero, mas não é bem assim: os sistemas modernos salvam o progresso de tempos em tempos, em pontos de checagem, então uma falha custa o trabalho desde o último ponto salvo, não a jornada inteira. Ainda assim, é computação cara jogada fora e cronograma empurrado pra frente. Por isso o que essas empresas mais valorizam não é só energia barata, e sim energia firme: disponível, previsível, pelas próximas décadas. Quando você entende os dois relógios, o comportamento das Big Techs deixa de parecer excêntrico e passa a parecer inevitável.

Infográfico que diferencia consumo anual, potência instantânea de um campus e limites locais da rede elétrica.
Os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024 e podem chegar a 945 TWh em 2030 no cenário-base da IEA. A média mundial, porém, não mostra se linha, subestação e transformador conseguem entregar centenas de MW a um campus específico.

Quando o Vale do Silício bate na porta da Velha Economia

Só que os prazos do nuclear complicam a conclusão fácil de que a resposta é "usina nuclear". Reativar um reator existente leva anos, e os reatores modulares, em grande parte, seguem promessas pro fim da década ou depois. No intervalo, segundo a própria Agência Internacional de Energia, as renováveis devem atender quase metade do crescimento da eletricidade destinada a data centers até 2030. O restante combina gás, carvão e nuclear, com apoio de armazenamento, rede e flexibilidade no consumo. Firmeza, então, não é outro nome pra energia nuclear. É o resultado de um portfólio que combina continuidade, prazo, custo e, cada vez mais, emissões.

E quando nada disso chega a tempo, entra a improvisação. Pra erguer o Colossus, data center da xAI em Memphis, rápido demais pra rede local acompanhar, a empresa recorreu a geração a gás no próprio terreno. Quantas turbinas, com quais licenças e a que custo ambiental, virou objeto de disputa, e vale não simplificar o caso. Mais tarde, em junho de 2026, o governo americano prorrogou ordens que mantinham disponíveis unidades de duas usinas de carvão em Indiana, citando confiabilidade da rede. Carvão, em pleno debate sobre transição energética, porque o governo avaliou que a retirada aumentaria o risco de faltar potência em momentos críticos.

Perceba o que esses movimentos dizem juntos. De repente, quem controla o portfólio de energia, as operadoras nucleares, as concessionárias, os produtores de gás, ganhou um poder sobre os gigantes digitais que não tinha há uma década. O gargalo do futuro não é código. É quilowatt. E é aqui que a história deixa de ser sobre engenharia e vira sobre poder.

A usina ao lado do servidor

Se esperar pela rede leva anos e nenhuma fonte resolve o problema sozinha, uma ideia parece irresistível: colar a computação na geração. A distância física quase desaparece. Mas a dependência desaparece junto? Foi essa aposta que a Amazon levou às margens do rio Susquehanna, também na Pensilvânia, onde um campus de data centers começou a ser desenvolvido ao lado de uma usina nuclear. Em 2024, a AWS comprou da Talen os ativos do campus, incluindo terreno, infraestrutura de energia e um prédio preparado pra receber equipamentos, numa transação de até 650 milhões de dólares em proventos brutos. A usina seguia ligada ao sistema regional, mas parte de sua produção poderia ir direto ao vizinho, e uma proposta levada ao regulador queria ampliar esse arranjo de cerca de 300 para 480 megawatts.

No mapa, parecia simples. Fora do mapa, virou disputa nacional. A configuração, conhecida como colocação atrás do medidor, encurta o caminho entre gerar e consumir, mas não retira nem a usina nem o campus do sistema ao redor. Pros defensores, ligar uma grande carga junto de uma usina acelera o acesso à potência e torna o território mais competitivo, e travar esses arranjos deixaria capacidade computacional esperando obras de anos. Pros críticos, se uma parcela maior da produção vai direto pro campus, sobra menos pro mercado; e se a usina falhar ou entrar em manutenção, o data center vai precisar do apoio da rede. Quem paga por manter esse backup: o grande cliente, a geradora ou os demais consumidores?

Em novembro de 2024, a Comissão Federal Reguladora de Energia dos Estados Unidos, a FERC, rejeitou a alteração proposta no acordo de interconexão, deixando aberta a possibilidade de nova submissão. Foi uma decisão dividida, e a divisão é o mais revelador: dentro do próprio regulador, uns trataram a colocação como forma de acelerar infraestrutura e competitividade, outros enfatizaram confiabilidade, proteção tarifária e custos compartilhados. Foi o momento em que o poder público entrou no jogo. A Amazon tentou encurtar o caminho convencional da rede, ligando a computação direto na usina, e o regulador respondeu que uma carga de centenas de megawatts não deixa de afetar o sistema só porque está encostada na geração.

A rejeição não encerrou a jogada. Em junho de 2025, Talen e Amazon anunciaram um novo contrato de até 1.920 megawatts, com entrega plena prevista até 2032, e redesenharam o arranjo pra colocá-lo à frente do medidor depois das reconfigurações esperadas em 2026. A usina entrega energia à PJM, a Talen fornece no varejo e a PPL faz a transmissão. Pra continuar avançando, elas recolocaram a rede entre a usina e o campus. A proximidade física resolveu uma distância e expôs um problema maior: a energia da IA não é só uma questão técnica ou de dinheiro. É também institucional.

Diagrama dos arranjos entre a usina de Susquehanna, o campus da Amazon e a rede regional.
Diagrama conceitual, sem topologia de engenharia. Em 2024, a proposta pretendia ampliar de cerca de 300 pra 480 MW o arranjo atrás do medidor e foi rejeitada pela FERC. Em 2025, Talen e Amazon anunciaram um contrato de até 1.920 MW à frente do medidor: a usina entrega à PJM, a Talen fornece no varejo e a PPL faz a transmissão.

Dois sistemas, dois defeitos diferentes

Quando o mapa se abre, a disputa muda de escala, e não dá pra apontar simplesmente um país mais preparado, porque Estados Unidos e China carregam combinações diferentes de força e fraqueza. Os americanos chegam com vantagem na cadeia computacional: reúnem as empresas que lideram os modelos, controlam parte decisiva do desenho dos chips mais avançados e ainda operam a maior frota nuclear do mundo, perto de 97 gigawatts, contra cerca de 59 da China. Sua matriz também é menos intensiva em carbono. Só que liderança em chips não constrói linha de transmissão. A rede americana se reparte entre mercados, operadores regionais, concessionárias, estados e órgãos federais, e um sistema planejado pra demanda estagnada agora recebe pedidos de cargas do tamanho de uma usina. O paradoxo é esse: os Estados Unidos têm muitos dos chips e da energia, e ainda podem ter dificuldade de fazer os dois se encontrarem no lugar e no prazo certos.

Na China, o ponto de partida é quase inverso. O país consumiu mais que o dobro da eletricidade dos Estados Unidos em 2024, cerca de 9.800 terawatts-hora contra 4.200, e construiu geração e transmissão em ritmo extraordinário, com linhas de ultra-alta tensão levando grandes blocos de energia por longas distâncias. O programa "Dados do Leste, Computação do Oeste", lançado em 2022, coordena oito hubs e dez clusters pra empurrar parte do processamento das cidades costeiras pras regiões do interior, onde há energia e espaço. Planejar energia, transmissão e data centers no mesmo mapa é uma vantagem real. Só que não é um sistema sem atrito: o carvão respondeu por quase 60% da geração do país em 2024, e por 55% em 2025, uma dependência difícil de esconder atrás dos painéis solares. Em março de 2024, a utilização agregada dos dez clusters era de 62,72%. E nem toda carga pode ser deslocada: serviços sensíveis à latência continuam perto dos usuários do leste. Escala elétrica também não substitui chips, e o acesso chinês aos aceleradores americanos mais avançados continua limitado pelos controles de exportação, mesmo com mudanças nas regras e licenças. Megawatt abundante não vira automaticamente computação de fronteira.

Aqui vale corrigir um símbolo que circulou como prova. O Linglong One, projeto chinês anunciado como o primeiro pequeno reator modular comercial terrestre do país, foi apresentado como evidência de que os chineses já ligaram os deles. Mas em julho de 2026 ele seguia oficialmente em construção, sem criticidade nem conexão à rede, segundo o registro da Agência Internacional de Energia Atômica. É um projeto avançado, não uma usina em operação, e os projetos americanos equivalentes também não estão ligados. Quem acompanha o setor de perto sente o contraste de clima mais do que o de placar. Rui Ma, fundadora da Tech Buzz China e analista da tecnologia chinesa, resume dizendo que, por lá, energia pra IA é tratada quase como problema resolvido. É a leitura dela, uma avaliação informada, não um consenso oficial. Ainda assim, pra quem vem da escassez e da improvisação americanas, soa quase inimaginável.

Se eu tivesse que resumir o descompasso numa imagem, e é só isso, uma imagem, não um dado, diria o seguinte: os Estados Unidos hoje correm atrás de energia pra sustentar a liderança em IA, enquanto a China parte de uma escala elétrica muito maior e de excedentes em algumas regiões, o que pode lhe dar mais margem pra transformar eletricidade em computação. No fim, a comparação não entrega um vencedor. Entrega dois sistemas incompletos de maneiras diferentes: um concentra mais poder na fronteira computacional, mas precisa adaptar uma rede fragmentada a um salto de demanda; o outro organiza infraestrutura física em escala, mas carrega carbono, utilização desigual e restrição de chips. Chips sem potência não bastam. Potência sem chips também não.

Mapa conceitual comparando a infraestrutura energética e computacional dos Estados Unidos e da China.
Mapa conceitual, não cartografia de redes ou rotas. Os Estados Unidos concentram parte da fronteira computacional e operam redes regionais; a China coordena oito hubs e dez clusters no programa Dados do Leste, Computação do Oeste. Nenhum dos dois controla toda a cadeia.

O trunfo condicionado do Brasil

E o Brasil nisso tudo? A boa notícia é difícil de exagerar. Em 2025, as fontes renováveis responderam por 86,6% da oferta interna de eletricidade do país: hidrelétrica, eólica, solar, biomassa. É uma participação muito superior à dos Estados Unidos e da China. Some a isso uma rede interligada de escala continental e os cabos submarinos que conectam o país a outros continentes, tema que exploramos no primeiro episódio do Panorama 360. No papel, energia limpa, território e conectividade parecem formar a combinação que a investigação vinha procurando.

Só que o papel esconde uma distância. Potencial não é capacidade instalada, e pedido de conexão não é campus ligado. Um pedido começa como intenção protocolada: a empresa declara onde quer instalar a carga e quanta potência espera usar. Depois vêm o parecer de acesso, os contratos, os equipamentos, as obras e, só então, a ligação física. No meio do caminho, um número pode mudar, atrasar ou desaparecer.

É com essa régua que se lê os anúncios brasileiros. O plano decenal registrou 26,3 gigawatts em processos de data centers protocolados no Ministério de Minas e Energia até outubro de 2025, com horizonte até 2038. Em junho de 2026, o ministro de Minas e Energia citou 38 gigawatts em pedidos de parecer de acesso. Os números chamam atenção, mas não devem ser somados: pertencem a datas e estágios diferentes e não representam carga contratada. Pra dar dimensão, o recorde de demanda instantânea do sistema brasileiro chegou a cerca de 106,5 gigawatts em fevereiro de 2025, de modo que os pedidos equivalem numericamente a uma fração relevante disso, ainda que comparem métricas e horizontes distintos.

Os investimentos anunciados são reais e também pedem cuidado. A Microsoft anunciou 14,7 bilhões de reais em infraestrutura de nuvem e IA no Brasil ao longo de três anos. A AWS anunciou 10,1 bilhões de reais até 2034 pra construir, expandir, conectar, operar e manter data centers no país. Nenhum dos dois valores equivale integralmente a novos centros dedicados à IA. A empresa brasileira Scala planeja a AI City, no Rio Grande do Sul, com capacidade final declarada de 4,75 gigawatts. O Ministério de Minas e Energia reconheceu uma alternativa técnica pra conexão de 1,8 gigawatt até 2033; a expansão potencial pra 5 gigawatts ainda exige novos estudos, e a conexão continua condicionada ao ONS e à Aneel. A primeira fase prevê 54 megawatts de capacidade de tecnologia da informação. Entre a ambição anunciada e a plena implantação existe um caminho longo.

Essa vantagem não passou despercebida em Washington. Em 2025, dois pesquisadores ligados à RAND Corporation, Marzia Giambertoni e Ismael Arciniegas Rueda, assinaram na revista The National Interest um comentário chamando a oportunidade brasileira de "Digital Dams", barragens digitais, e propondo uma troca estratégica: semicondutores americanos por energia renovável brasileira. Vale a precisão, pra não inflar a história: é um artigo de opinião de dois profissionais afiliados à RAND, não uma posição institucional do instituto. Ainda assim, é raro ver esse tipo de urgência geopolítica dirigida ao Brasil.

E existe a notícia preocupante. Ter energia não é o mesmo que ter infraestrutura pra entregá-la, porque a geração eólica pode estar no litoral do Ceará e o campus, a centenas de quilômetros dali. O planejamento oficial prevê cerca de 120 bilhões de reais em expansão da transmissão até 2035, mas esse investimento atende ao sistema elétrico inteiro, não é uma conta criada só por data centers. A vantagem da matriz limpa só vira vantagem computacional quando o conjunto entrega potência no ponto certo, no prazo certo.

E aqui convém desarmar um automatismo que costuma fechar esse tipo de análise. Não é lei que um data center atraia, nessa ordem, capital, talento, inovação e influência. Há investimento e obra, sim, mas a operação costuma empregar menos gente diretamente que a construção, embora salários e efeitos indiretos possam ser relevantes. O tamanho desses transbordamentos depende do ecossistema ao redor. Mesmo que energia, rede e cabos se encontrem, soberania computacional não aparece sozinha: ainda são necessários chips, segurança, gente qualificada, regulação, clientes e capacidade de criar valor local. Hospedar processamento pra terceiros e construir poder tecnológico são resultados diferentes. O primeiro atrai capital. Só o segundo muda a posição do país no tabuleiro. A oportunidade é real, mas não é automática, e a janela não fica aberta pra sempre.

Mapa conceitual do Brasil com geração renovável, rede elétrica, cabos submarinos e um campus de data centers condicionado à conexão.
Mapa conceitual. As renováveis responderam por 86,6% da oferta interna de eletricidade em 2025. Matriz, rede interligada e cabos submarinos dão ao Brasil uma oportunidade, mas não representam data centers construídos nem garantem potência conectável ou soberania tecnológica.

O novo lastro do poder

Aqui está a lição que poucos estão dispostos a encarar, e ela é mais desconfortável do que os dois slogans em disputa. A corrida pela inteligência artificial é uma corrida por algoritmos, chips, dados e talento. Tudo isso é verdade. Mas antes, durante e depois de tudo isso, ela é uma corrida por energia. E não por energia em abstrato: por potência firme, entregável no ponto certo, no ritmo em que a computação cresce.

No século 20, quem controlava o petróleo controlava o mapa. No começo do século 21, o discurso mudou: o poder estaria nos dados, nos algoritmos, na nuvem. A realidade se mostrou mais dura. Mas cuidado com o exagero na direção oposta, porque energia também não produz poder sozinha. Uma GPU sem potência é capital ocioso, e eletricidade sem chips, conectividade e demanda não vira inteligência computacional. O lastro não está numa fonte específica, nem num contrato isolado. Está na capacidade do sistema de entregar potência, coordenar dependências e crescer no ritmo da computação.

Lembra da Microsoft, lá na abertura, reservando vinte anos de uma usina que ainda nem religou? Aquilo não era um capricho de bilionária. Era uma aposta calculada de que energia firme, no lugar certo e pelas próximas décadas, será um dos recursos mais disputados da era da IA, e de que quem a garante compra tempo num relógio que o dinheiro, sozinho, não acelera. Países que garantem esse sistema atraem capital e infraestrutura. Mas atrair infraestrutura e converter isso em poder tecnológico são coisas diferentes, e só a segunda muda a posição de um país no tabuleiro. Num mundo em que a IA começa a redefinir economia, defesa, medicina e educação, essa diferença vira assimetria estratégica.

O futuro não é etéreo, não flutua na nuvem. É brutalmente físico: chips, cabos, geração, transmissão, contratos e território, uma cadeia computacional apoiada, a cada instante, numa cadeia elétrica. Enquanto muita gente debate o que a IA vai fazer conosco, as potências globais estão fazendo uma pergunta bem mais prática. Quando a próxima fronteira exigir mais um gigawatt, quais territórios conseguirão entregá-lo, e quais dependências, obras e decisões vão tornar essa entrega possível?


Perguntas frequentes

Quanta eletricidade os data centers consomem?

Os data centers consumiram cerca de 415 TWh no mundo em 2024, aproximadamente 1,5% da eletricidade global. No cenário-base da Agência Internacional de Energia, o consumo pode chegar a 945 TWh em 2030, pouco menos de 3% do total mundial.

Por que a inteligência artificial precisa de tanta energia?

Modelos de IA usam milhares de chips especializados em treinamento e inferência. Além dos servidores, os data centers precisam alimentar refrigeração, redes internas, armazenamento e sistemas de segurança e redundância.

O que é potência conectável?

É a carga que pode ser efetivamente ligada a um ponto da rede, com os reforços necessários e dentro do prazo do projeto. Um país pode produzir muita eletricidade e ainda não conseguir entregar centenas de megawatts onde um novo campus pretende operar.

A energia nuclear é a única solução para os data centers?

Não. Contratos nucleares ganharam destaque por oferecerem geração contínua e compromissos longos, mas vários projetos só devem avançar no fim da década ou depois. Renováveis, gás, carvão, armazenamento, expansão da rede e flexibilidade também participam do atendimento.

Por que Microsoft, Google e outras Big Techs estão contratando energia por décadas?

Esses contratos tentam dar previsibilidade à oferta futura e reduzir o risco de que a infraestrutura elétrica atrase a expansão computacional. Eles também ajudam geradoras e desenvolvedores a justificar investimentos em ativos existentes ou ainda planejados.

O que aconteceu no caso Amazon–Susquehanna?

A AWS comprou ativos de um campus ao lado da usina nuclear de Susquehanna e apoiou uma ampliação do arranjo direto, rejeitada pela FERC em 2024. Em 2025, Amazon e Talen anunciaram um novo contrato de até 1.920 MW e redesenharam a configuração para manter a rede entre a usina e o campus.

Estados Unidos ou China têm vantagem energética na corrida da IA?

Os Estados Unidos lideram partes da cadeia de chips e modelos, mas enfrentam redes e decisões mais fragmentadas. A China opera um sistema elétrico muito maior e coordena energia e computação territorialmente, mas ainda lida com carvão, utilização desigual, latência e restrições aos chips mais avançados. Nenhum dos dois controla toda a cadeia.

O Brasil pode virar uma potência em data centers e inteligência artificial?

O Brasil combina alta participação de renováveis, território, rede interligada e cabos submarinos. Essa vantagem só vira poder tecnológico se vier acompanhada de transmissão, conexões, chips, segurança, profissionais, regulação, clientes e criação de valor local.