Os Dois Pedágios do Mundo

Mapa da Península Arábica destaca o Estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb nas duas extremidades das rotas marítimas regionais.
CategoriaGeopolítica
Retrato de Eduardo Ferreira Lima Eduardo Ferreira Lima

Os Dois Pedágios do Mundo

Uma milícia esvaziou uma rota. Um Estado estrangulou a outra.

No fim de 2023, uma das rotas mais movimentadas do planeta perdeu mais da metade do petróleo que a atravessava. Ninguém selou a passagem. Nenhum navio encontrou uma barreira no caminho. E é exatamente por isso que essa história importa.

Porque o que esvaziou aquela rota não foi uma porta fechando. Foi uma conta deixando de fechar. Para entender como isso funciona, e por que o mesmo mecanismo está em operação hoje em Ormuz, é preciso começar por uma distinção que quase ninguém faz: a diferença entre o mapa e a operação.

Bloco 1: O mapa oferece uma rota; a operação, outra

Entre a Ásia e a Europa, um navio pode encurtar a viagem pelo Mar Vermelho ou continuar ao sul até contornar a África. O destino não muda. O caminho, sim. Visto de longe, isso parece dar ao comércio uma liberdade rara: se uma passagem fica perigosa, resta o oceano.

Só que uma rota marítima não é escolhida apenas pela água que existe à frente. Antes de um navio partir, entram na conta o tempo de viagem, o combustível, a disponibilidade da embarcação, os compromissos de entrega, os portos, a capacidade e o risco. Repare na diferença: a linha mais curta permite que o mesmo navio conclua uma viagem e volte a ficar disponível mais cedo. A mais longa mantém casco, tripulação, carga e capital ocupados por mais tempo. As duas levam ao destino, mas não fazem o mesmo trabalho.

É fácil perder isso de vista porque a gente olha para o oceano e vê espaço. Não há uma estrada que termine nem um trilho que obrigue o navio a virar. Mas o comércio não procura apenas uma rota navegável. Procura uma rota que preserve prazo, custo e escala sem desorganizar o que foi programado antes e depois daquela viagem.

Agora coloque essa escolha em perspectiva. Cerca de 80% do volume do comércio internacional de bens segue por mar. Isso significa que uma parte enorme da economia mundial depende continuamente da mesma sequência de decisões: qual navio vai levar qual carga, por qual corredor, em quanto tempo e a que custo. Quando algumas respostas funcionam melhor que outras, o fluxo se concentra.

Essa concentração não acontece de uma vez. Portos recebem determinadas rotas. Contratos passam a contar com seus prazos. Frotas são distribuídas de acordo com a duração esperada das viagens. Combustível, escalas e datas de chegada entram no planejamento. Aos poucos, um caminho deixa de ser apenas uma possibilidade geográfica e se torna a opção em torno da qual o restante do sistema foi organizado.

Guarde essa diferença. O mapa mostra onde há água e por onde um navio pode passar. A operação responde por onde ainda faz sentido passar depois que distância, tempo, combustível, capacidade, seguro e compromissos de entrega entram na conta. O oceano físico permanece amplo. O oceano econômico cabe em muito menos linhas.

Agora a gente pode voltar àquela rota do fim de 2023. A passagem que perdeu navios sem nunca fechar tem nome e endereço: Bab el-Mandeb, a entrada sul do Mar Vermelho.

Mapa das rotas entre Ormuz, Bab el-Mandeb, Canal de Suez e Cabo da Boa Esperança, distinguindo trajetos que usam um ou os dois estreitos.
Ormuz é a saída marítima do Golfo; Bab el-Mandeb liga o oceano Índico ao Mar Vermelho e a Suez. Algumas cargas atravessam os dois, outras não.

Ormuz é a saída marítima do Golfo; Bab el-Mandeb liga o oceano Índico ao Mar Vermelho e a Suez. Algumas cargas atravessam os dois, outras não.

Bloco 2: A passagem que continuou aberta enquanto os navios recuavam

Em 15 de dezembro de 2023, o MSC Palatium III foi atacado. Naquele mesmo dia, a MSC anunciou que seus navios deixariam a rota de Suez e seguiriam pelo Cabo da Boa Esperança. A passagem continuava no mesmo lugar. O que havia mudado era a resposta de uma empresa à pergunta mais concreta de todas: ainda valia a pena mandar seus navios por ali?

A MSC não estava sozinha nesse cálculo. Naquele período, Maersk e CMA CGM também documentaram pausas ou desvios no corredor do Mar Vermelho. Repare no movimento: nenhuma dessas empresas precisou esperar que uma barreira atravessasse o estreito ou que uma autoridade declarasse a navegação suspensa. Bastou concluir que, nas condições daquele momento, seguir pela rota curta já não compensava o risco.

Os ataques Houthis haviam começado em novembro de 2023. A ameaça vinha de um ator não estatal capaz de atingir embarcações na região, mas isso não significava domínio completo sobre Bab el-Mandeb. Navios continuaram atravessando. Alguns operadores mantiveram serviços. Não havia uma cancela física separando quem passava de quem ficava do lado de fora. Ainda assim, parte relevante do tráfego tomou outro caminho.

Então quem retirou a rota de uso: quem lançou a ameaça ou as empresas que decidiram recuar? A pergunta parece pedir um único responsável, mas o mecanismo depende dos dois lados. Sem a ameaça, o cálculo comercial não teria mudado daquela forma. Sem armadores e comandantes traduzindo o risco em decisões concretas, a ameaça não teria produzido o mesmo efeito sobre o fluxo.

É aqui que a ideia de uma passagem simplesmente aberta ou fechada começa a ficar pequena demais. Bab el-Mandeb permaneceu fisicamente navegável. Só que, para uma parte do mercado, possibilidade física já não bastava. Colocar tripulação, carga e embarcação naquela rota precisava continuar fazendo sentido diante do risco. Quando essa conta deixou de fechar para alguns operadores, os navios não precisaram formar uma fila diante do estreito. Eles foram desviados antes de chegar.

O resultado aparece no petróleo que cruzava a passagem. Em 2023, o fluxo foi de 9,3 milhões de barris por dia, segundo a EIA. Em 2024, caiu para 4,1 milhões. Não chegou a zero, e essa qualificação importa. O dado não descreve uma porta lacrada. Mostra algo mais interessante: uma rota pode continuar funcionando e, mesmo assim, perder mais da metade de um fluxo importante de um ano para o outro.

Outra medida mostra quanto essa mudança persistiu. Em abril de 2026, mais de dois anos depois do início dos ataques, o total de trânsitos por Bab el-Mandeb ainda estava em mais ou menos metade do nível anterior à campanha. A comparação exige cuidado, porque o primeiro dado mede barris de petróleo e o segundo mede trânsitos de navios. Não dá para juntar os dois numa série só. Mas ambos apontam para a mesma transformação operacional: a passagem continuou disponível sem recuperar sua função anterior.

Agora volte à escolha do início. O contorno da África estava lá e recebeu parte dos navios que recuaram. Isso prova que o comércio consegue se adaptar. Só que a carga não desapareceu, o destino não ficou mais perto e a frota não ganhou tempo extra. Se o caminho alternativo funciona, quanto do sistema ele precisa consumir para funcionar? Essa é a próxima parte da investigação.

Bloco 3: O plano B que exige mais sistema

A carga que deixou de passar pelo Mar Vermelho não ficou necessariamente parada. Parte dela seguiu para o sul, contornou o Cabo da Boa Esperança e depois subiu pelo outro lado da África. É uma alternativa real, capaz de receber uma parcela ampla do tráfego que evita Bab el-Mandeb e Suez. O mapa, portanto, estava certo: havia outro caminho.

Mas acompanhe o navio por mais alguns dias. Em certas cadeias, o desvio pelo Cabo acrescenta dez dias ou mais à viagem. Para petroleiros que seguem entre o Mar da Arábia e a Europa, a estimativa é de cerca de quinze dias adicionais. Esses números não são uma regra universal. Eles mudam conforme origem, destino, tipo de embarcação, serviço e escalas. O que mostram é algo mais simples: contornar um continente cobra tempo.

E tempo, no transporte marítimo, não passa de graça. Aquela conta do início (casco, tripulação, combustível e capital ocupados) deixa de ser teoria e vira fatura. A rota alternativa mantém o movimento, mas exige mais recursos para transportar a mesma coisa até o mesmo destino.

Pense na frota por um instante. Se cada viagem demora mais, o mesmo conjunto de navios completa menos viagens no mesmo período. Para preservar a frequência anterior, é preciso encontrar capacidade adicional. Caso contrário, os intervalos aumentam. É por isso que um desvio pode se comportar como perda de capacidade mesmo quando nenhum navio desapareceu e a quantidade de mercadoria não cresceu.

Foi o que apareceu nos porta-contêineres. Segundo a UNCTAD, em meados de 2024 as rotas mais longas tinham elevado em cerca de 12% a demanda por capacidade desse tipo de navio, na comparação com o que seria sem os desvios. Repare no paradoxo: não foi necessário um crescimento equivalente da carga para o sistema pedir mais frota. Bastou alongar o caminho. Os mesmos contêineres passaram a ocupar navios por mais tempo, e a distância transformou horas de navegação em necessidade adicional de capacidade.

Isso não torna o Cabo um plano B falso. Ao contrário: foi justamente porque essa alternativa existia que mercadorias continuaram circulando apesar da redução do tráfego em Bab el-Mandeb. A adaptação funcionou. Só que funcionar não significa reproduzir as condições da rota anterior. O desvio preservou movimento ao custo de mais tempo, combustível, capacidade de frota e capital.

Agora a pergunta muda: não basta saber se há outro caminho. É preciso entender quanto da função original ele preserva, por quanto tempo e a que custo. Um plano B pode ser amplo sem ser equivalente. Pode impedir uma paralisação e, ao mesmo tempo, espalhar atraso e custo pelo restante do sistema. Resiliência não é sair ileso. É continuar operando enquanto se absorve a diferença.

Bab el-Mandeb mostrou esse mecanismo em uma rota que perdeu parte importante do tráfego por causa do risco e encontrou no Cabo uma saída mais longa. Mais de dois anos depois, Ormuz levaria a mesma lógica a uma intensidade muito maior. E com uma diferença que quase todo mundo erra na cronologia: ali, a quase paralisação não começou com um decreto. Começou antes, nos navios que já tinham recuado. É por eles que a gente precisa começar.

Bloco 4: O estreito que fechou antes do anúncio

Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel iniciaram ataques ao Irã. O Irã retaliou e passou a restringir a passagem de embarcações consideradas hostis. Nos dias seguintes, ataques a navios, avisos de rádio, risco de minas e restrições seletivas mudaram o cálculo de quem precisava atravessar Ormuz. Mais uma vez, o primeiro movimento visível no comércio não foi uma barreira surgindo na água. Foram embarcações recuando.

Só que, desta vez, a intensidade foi outra. Em Bab el-Mandeb, parte importante do tráfego seguiu pelo Cabo enquanto alguns operadores continuaram usando a passagem. Em Ormuz, o fluxo de petroleiros caiu até quase desaparecer. Nos dados reunidos pelo FMI até 6 de abril, as travessias diárias desse tipo de navio tinham saído de aproximadamente 70 para perto de zero.

Repare no que essa cronologia diz. Em março e no início de abril, Ormuz já estava perto de uma paralisação operacional. Ataques, ameaças, avisos e o risco de minas haviam alterado a decisão de armadores e comandantes. A água continuava ali. O estreito não tinha sido selado de uma margem à outra. Mas a possibilidade física de atravessar já não bastava para manter o fluxo.

Agora vem a parte que inverte a história mais conhecida. Avisos, restrições seletivas e alegações de fechamento circulavam desde os primeiros dias. Em abril, o próprio Irã ainda negava ter fechado o estreito e dizia manter passagens sob arranjos de segurança. Mas a declaração inequívoca de fechamento completo a todos os navios, sem exceções, só veio em 11 de junho, mais de três meses depois do início da crise e mais de dois meses depois do dado do FMI. O anúncio universal não criou a quase paralisação registrada em março e abril. Ele tornou explícita e indiscriminada, na retórica, uma condição que já existia na prática para grande parte do tráfego.

Então o que significa fechar um estreito se os navios já desapareceram antes da ordem universal? Significa que a palavra "fechamento" pode descrever coisas diferentes. Uma passagem pode continuar fisicamente navegável, permanecer protegida por um direito internacional de trânsito e, ainda assim, tornar-se operacionalmente inviável. Foi nesse sentido prático que Ormuz sofreu um fechamento de facto, ou efetivo: o fluxo se tornou residual sem que o corredor precisasse ser bloqueado fisicamente.

A distinção jurídica importa porque um Estado costeiro não ganha, apenas por anunciar, um direito reconhecido de suspender a passagem. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar estabelece a passagem em trânsito por estreitos internacionais e determina que ela não pode ser impedida nem suspensa unilateralmente. O Irã assinou, mas não ratificou a Convenção, e contesta a aplicação desse regime. Ainda assim, a IMO não tratou sua declaração como um fechamento jurídico reconhecido.

Isso cria três perguntas diferentes. Era fisicamente possível atravessar? Havia um direito de passagem? Era operacionalmente viável colocar navio, carga e tripulação naquela rota? Em Ormuz, as respostas deixaram de coincidir. A geografia podia dizer sim, o direito também, enquanto o cálculo de risco dizia não. E, para o comércio, essa terceira resposta era a que movia os navios.

Os dois estreitos mostram métodos diferentes, mas o mesmo mecanismo em camadas. Em Bab el-Mandeb, uma ameaça local empurrou parte relevante do tráfego para uma rota mais longa. Em Ormuz, coerção estatal, retaliação, ataques, restrições e risco operacional reduziram o fluxo a um nível muito mais baixo. O decreto veio depois. Se ele não explica sozinho como a passagem deixou de funcionar, a próxima pergunta é inevitável: quais decisões, ameaças e instituições produzem, juntas, uma rota que existe no mapa e desaparece na operação?

Bloco 5: A porta aberta que ninguém consegue tratar como normal

Em 17 de junho, Estados Unidos e Irã assinaram um acordo que previa retomada imediata da passagem e normalização em até 30 dias. O texto divulgado pelo lado americano também incluía desminagem iraniana, suspensão de cobranças por 60 dias e levantamento do bloqueio americano, sem que o Irã tivesse publicado uma versão própria. Depois de meses de quase paralisação, parecia existir uma sequência clara: acordo assinado, estreito reaberto, navios de volta.

No dia seguinte, o JMIC declarou Ormuz aberto. Só que a mesma nota recomendava evitar o esquema internacional de separação de tráfego por causa de minas e usar um corredor mais ao sul. Repare na contradição: a rota estava formalmente aberta, mas o aviso operacional dizia que atravessar ainda exigia desvio e cautela. A água permitia passagem. A normalidade comercial ainda não.

Uma semana depois, em 25 de junho, a distância entre documento e operação ficou ainda mais clara. A IMO iniciou uma operação de evacuação e precisou pausá-la após um novo ataque. Outros ataques e restrições se seguiram, e a implementação do acordo se deteriorou. Na data de corte deste artigo, 17 de julho de 2026, a situação em Ormuz continuava em escalada. O acordo existia, mas não podia ser tratado como solução duradoura.

Linha do tempo mostra que as travessias de petroleiros em Ormuz chegaram perto de zero antes da declaração universal de fechamento e do acordo de reabertura.
O fechamento de facto precedeu o anúncio universal. A abertura formal de junho também não produziu normalização imediata.

O fechamento de facto precedeu o anúncio universal. A abertura formal de junho também não produziu normalização imediata.

Bloco 6: Quando o gargalo do mar chega ao poço

O caminho de volta começa no terminal. Se os petroleiros não chegam para carregar, o petróleo que seria embarcado permanece em terra. Os tanques absorvem parte desse volume e compram algum tempo. Só que a armazenagem também tem limite. Quando ela enche, o problema deixa de ser apenas encontrar um navio e passa a ser encontrar onde colocar o que continua saindo dos campos.

É aí que um gargalo no mar alcança a produção. Sem espaço para armazenar e sem escoamento suficiente, produtores reduzem ou interrompem a extração. Segundo a AIE, países do Golfo cortaram cerca de 10 milhões de barris por dia de produção em março de 2026, no que a agência classificou como a maior interrupção de oferta da história do mercado global de petróleo. O estreito não estava apenas segurando carga dentro do Golfo. Estava alterando quanto petróleo podia continuar sendo produzido.

Para entender a escala, volte um passo. Em 2025, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia atravessavam Ormuz. Isso não significa que tudo o que saía do Golfo dependia do estreito. Havia rotas terrestres, terminais fora da passagem e países com graus diferentes de dependência. Ainda assim, o volume concentrado naquele corredor era grande demais para ser deslocado por uma única alternativa.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos tinham os principais oleodutos capazes de levar parte do petróleo para terminais fora de Ormuz. No início de 2026, a capacidade potencial disponível estimada desses dutos ficava entre 3,5 e 5,5 milhões de barris por dia. Guarde a qualificação: a faixa descreve o que os dutos poderiam escoar em tese, não o que estava efetivamente saindo por eles.

A comparação revela o tamanho do plano B. De um lado, cerca de 20 milhões de barris por dia cruzando o estreito em condições normais. Do outro, uma capacidade potencial disponível estimada entre 3,5 e 5,5 milhões de barris por dia para contorná-lo por dutos. Se Ormuz funciona como uma aorta, esses oleodutos são vasos menores: aliviam a pressão, mas não substituem o fluxo na mesma escala.

Outros amortecedores também entram na conta. Estoques podem sustentar entregas por algum tempo. Produtores de outras regiões podem ampliar a oferta em alguma medida, compradores podem reduzir a demanda e refinarias podem ajustar o tipo de petróleo que processam. Cada medida preserva uma parte da função ou compra tempo. Nenhuma delas, sozinha, repõe o mesmo volume, no mesmo prazo e pelo mesmo custo.

Repare como a crise percorreu a cadeia no sentido inverso. Primeiro, o risco afastou navios. Depois, terminais acumularam produto, a armazenagem ficou pressionada e parte da produção precisou ser cortada. O que parecia uma decisão tomada no mar voltou até o poço porque uma cadeia não funciona apenas quando consegue produzir. Ela precisa conseguir escoar.

Isso muda novamente a pergunta sobre resiliência. Em Bab el-Mandeb, o Cabo ofereceu uma rota marítima ampla, mas cobrou tempo, combustível e capacidade de frota. Em Ormuz, os dutos ofereceram uma saída mais curta, porém limitada a uma fração do fluxo normal, enquanto estoques e outros ajustes amorteceram o restante. Cabo e oleodutos são planos B reais. Nenhum é gratuito, e nenhum preserva integralmente a função da rota original.

Agora os dois casos podem ser colocados lado a lado. Um cobra mais sistema para contornar a África. O outro mostra como é pequena a parcela que consegue escapar por fora do estreito. Falta entender o que esses custos têm em comum e por que funcionam como um pedágio mesmo sem uma cabine cobrando na passagem.

Infográfico compara o tempo e a frota exigidos pelo desvio no Cabo com a capacidade limitada dos oleodutos que contornam Ormuz.
O Cabo preserva uma parcela ampla do movimento com mais tempo e frota. Os oleodutos contornam Ormuz, mas cobrem apenas parte do fluxo normal.

O Cabo preserva uma parcela ampla do movimento com mais tempo e frota. Os oleodutos contornam Ormuz, mas cobrem apenas parte do fluxo normal.

Bloco final: Os dois pedágios do mundo

Agora dá para ver por que são dois pedágios, e não duas versões da mesma história. Em Bab el-Mandeb, uma ameaça armada não estatal levou parte relevante do tráfego a um desvio marítimo amplo, real e caro. Em Ormuz, a coerção de um Estado costeiro, combinada à resposta militar americana e a outras decisões operacionais, produziu uma redução muito mais profunda do fluxo. As alternativas eram menores e mais fragmentadas.

Os métodos diferem, mas o mecanismo comum aparece com clareza. A ameaça ou a coerção muda o cálculo de quem opera a rota. Armadores, seguradores e comandantes transformam risco em decisão. Quando essa decisão se repete ao longo da rede, a passagem perde função mesmo sem controle absoluto sobre cada navio e sem uma barreira física ocupando toda a água.

É aí que surge o pedágio estrutural. Ele não precisa ser uma tarifa única nem aparecer numa cabine. Pode chegar na forma de combustível adicional, navios extras, seguro, estoques, espera, escolta, autorização, atraso e produção perdida. Cada custo cai num ponto diferente da cadeia, mas todos expressam a mesma diferença: a distância entre a rota eficiente e a adaptação que ainda é possível.

Quem consegue impor essa diferença ganha poder sobre o fluxo, mesmo sem controlar sozinho a passagem. Em Bab el-Mandeb, o custo apareceu principalmente no contorno e na capacidade adicional exigida da frota. Em Ormuz, apareceu na quase paralisação, nos riscos da travessia, na capacidade limitada dos dutos e no choque que voltou até a produção. O pedágio não foi cobrado do mesmo modo, mas alcançou o sistema inteiro.

Isso não significa que concentrar rotas seja um erro. Em tempos normais, concentração pode ser uma escolha perfeitamente racional. Ela reduz distância, economiza combustível, simplifica contratos e evita manter infraestrutura ociosa para choques que talvez não aconteçam. Redundância permanente também custa dinheiro. Não existe uma rede resiliente sem alguém pagando por capacidade que pode passar longos períodos sem uso.

A escolha real, portanto, não é entre eficiência ruim e resiliência boa. É entre economizar em condições normais e decidir quanto estamos dispostos a pagar para continuar funcionando quando o risco muda. Se a redundância não foi construída antes, a conta aparece durante o choque. E costuma chegar nas condições definidas pela alternativa disponível, não por quem depende dela.

Volte ao mapa da abertura. As duas linhas entre Ásia, Mar Vermelho, Cabo e Europa continuam exatamente onde estavam. O oceano físico ainda parece oferecer liberdade quase ilimitada. Só que agora cada linha carrega uma quantidade diferente de tempo, capacidade, risco, coordenação e poder. O mapa mostra por onde é possível passar. A investigação mostrou quanto da função sobrevive quando essa passagem deixa de fazer sentido.

Esse é o modelo mental que permanece depois de Bab el-Mandeb e Ormuz. Diante de qualquer rede global, já não basta perguntar se existe outro caminho. É preciso perceber quanto fluxo está concentrado, quanto da função a alternativa preserva, por quanto tempo o sistema absorve o custo e quem consegue alterar o cálculo de uso. Uma cadeia pode parecer espalhada pelo mundo e continuar dependente de um ponto local.

No início, o oceano parecia amplo demais para ter portas. Agora sabemos que a água aberta pode esconder poucas rotas competitivas, alternativas parciais e custos que alguém consegue impor sem fechar completamente a passagem. A água continua a mesma. Depois dos dois pedágios, o que muda é saber quem pode obrigar o mundo a pagar pelo caminho que resta.

Fact-Check

Dados, cronologia e enquadramentos jurídicos verificados até 17 de julho de 2026.

Eduardo Ferreira Lima é criador do Panorama 360, onde explora a intersecção entre geopolítica, tecnologia e poder.

Perguntas frequentes

O que é Bab el-Mandeb?

É o estreito que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e, por consequência, à rota do Canal de Suez. Ele conecta fluxos entre o oceano Índico, a Ásia e a Europa.

Por que o Estreito de Ormuz é tão importante?

Porque é a principal saída marítima do Golfo Pérsico. Em 2025, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia atravessavam a passagem.

Bab el-Mandeb chegou a ser fechado pelos Houthis?

Não de forma física e total. Ataques e ameaças elevaram o risco, parte dos operadores recuou e o fluxo caiu, enquanto outros navios continuaram atravessando.

Qual é a alternativa a Bab el-Mandeb e ao Canal de Suez?

O principal desvio marítimo é o Cabo da Boa Esperança. Ele preserva o movimento, mas acrescenta dias de viagem e exige mais combustível, frota e capital.

Existe uma rota alternativa ao Estreito de Ormuz?

Existem oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, além de estoques e outros ajustes. A capacidade disponível dos dutos, porém, representa apenas uma fração do fluxo normal pelo estreito.

O que é um fechamento de facto de uma rota marítima?

É quando a passagem continua fisicamente navegável, mas o risco e as restrições reduzem o tráfego a níveis residuais. A rota existe no mapa, porém deixa de funcionar normalmente na operação.

O direito internacional permite fechar o Estreito de Ormuz?

A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar prevê passagem em trânsito por estreitos internacionais e determina que ela não seja impedida nem suspensa unilateralmente. O Irã assinou, mas não ratificou a Convenção, e contesta parte desse regime.

O que é o pedágio estrutural descrito no artigo?

É a diferença de custo entre a rota eficiente e a adaptação ainda possível. Pode aparecer como combustível, seguro, escolta, atraso, estoques, navios extras ou produção perdida, mesmo sem uma tarifa única.