Panorama 360 – Eduardo Ferreira Lima
Groenlândia: A Ilha que Vale um Império
Por que Trump quer comprar a maior ilha do mundo (e por que isso não é tão absurdo quanto parece)
Quando Trump declarou, no início de 2025, que os Estados Unidos teriam a Groenlândia ‘de um jeito ou de outro’, a primeira reação global foi risada. Comprar a Groenlândia? Anexar uma ilha congelada no meio do nada?
Mas aí ele disse que não descartava usar força militar. Que era questão de segurança nacional. E de repente, parou de ser piada.
Porque quando você entende onde a Groenlândia fica, o que tem debaixo do gelo, e o que está acontecendo com esse gelo, a história muda completamente de figura.
A ilha gigante com população menor que a do Maracanã
Vamos começar pelo absurdo geográfico. A Groenlândia é maior que França, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Itália, Grécia, Suíça e Bélgica somados. Mais de 2 milhões de quilômetros quadrados. A maior ilha do mundo.
E sabe quantas pessoas moram lá? Menos do que a capacidade do Maracanã. Por volta de 56 mil habitantes. Numa área do tamanho da Europa Ocidental.
A maior parte da ilha está permanentemente coberta de gelo. A camada de gelo da Groenlândia é tão grande que contém cerca de 7% de toda a água doce do planeta. Se derreter completamente, o nível do mar sobe uns 7 metros. Adeus Miami, adeus Recife, adeus boa parte do litoral mundial.
A capital, Nuuk, tem menos de 20 mil habitantes. Não tem estrada ligando as cidades. Zero. Para ir de uma cidade para outra, você pega barco ou avião. No inverno, quando congela tudo, nem barco funciona direito.
[MAPA: Groenlândia mostrando tamanho comparado com Europa e localização das principais cidades]
A base militar construída por milhares de trabalhadores em pleno Ártico
Aqui vem a parte interessante. Em junho de 1951, no auge da Guerra Fria, os Estados Unidos montaram uma operação chamada ‘Blue Jay’. Uma armada de 120 navios saiu de Norfolk, Virgínia, com milhares de trabalhadores e centenas de milhares de toneladas de carga.
Chegaram na Groenlândia em julho. E começaram a construir uma base militar gigantesca no extremo norte da ilha. Trabalhando 24 horas por dia, aproveitando o sol da meia-noite do verão ártico.
A Base Aérea de Thule (hoje chamada Pituffik Space Base) fica bem acima do Círculo Polar Ártico. É uma das instalações militares mais ao norte do planeta. Tem uma pista de 3 km de extensão. E continua operacional até hoje.
Mas tem um detalhe sombrio. Quando construíram a base, havia uma aldeia Inuit chamada Dundas no local. As famílias foram forçadas a sair. Carregaram seus pertences em trenós puxados por cães e foram realocadas mais de 100 km ao norte, em pleno inverno. Até hoje isso gera controvérsia na Groenlândia.
O corredor que vigiava submarinos soviéticos
A Groenlândia fica no meio de um corredor chamado GIUK Gap. Groenlândia, Islândia, Reino Unido. Durante a Guerra Fria, qualquer submarino soviético que saísse do Ártico para chegar ao Atlântico precisava passar por ali.
Os americanos montaram sistemas de vigilância subaquática para detectar esses submarinos. Sensores acústicos no fundo do mar, aviões de patrulha, radares. Era um ponto crítico de monitoramento.
E hoje? A Rússia voltou a patrulhar o Ártico com submarinos nucleares. A China está testando drones subaquáticos. E os Estados Unidos precisam saber o que passa debaixo d’água nessa região. Thule continua sendo essencial para isso.
[MAPA: GIUK Gap mostrando o corredor estratégico entre Ártico e Atlântico]
O gelo está derretendo (e isso muda tudo)
Aqui começa a ficar realmente interessante. O Ártico está esquentando quatro vezes mais rápido que o resto do planeta. E isso está abrindo rotas marítimas que antes eram impossíveis.
A Rota do Mar do Norte, que passa pela costa norte da Rússia, corta milhares de milhas náuticas em comparação com ir pelo Canal de Suez. Navios comerciais já passam por lá no verão. Rússia e China estão desenvolvendo juntas essa rota.
Mas tem outra rota: a Passagem do Noroeste. Essa passa pertinho da Groenlândia, atravessa o Arquipélago Ártico Canadense e conecta Atlântico ao Pacífico.
E aqui vem o ponto estratégico: quem controla a costa da Groenlândia controla o acesso a essa passagem. Não é só sobre comércio. É sobre vigiar quem passa por ali. É sobre garantir que essas rotas não virem corredores militares no quintal americano.
[MAPA: Rotas árticas – Passagem do Noroeste vs Rota do Mar do Norte]
Os metais que fazem seu celular funcionar (e seus mísseis também)
Agora vamos falar de um assunto que pouquíssima gente conhece: terras raras.
São elementos químicos com nomes impronunciáveis. Neodímio, disprósio, praseodímio, térbio. Você nunca ouviu falar deles. Mas sem eles, seu iPhone não funciona. Sua turbina eólica não gira. Seu carro elétrico não anda. E o míssil guiado do F-35 não acerta o alvo.
Esses metais são usados em ímãs super potentes. São esses ímãs que vão em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos, fones de ouvido. E em sistemas de defesa. Caças F-35, mísseis Tomahawk, submarinos, satélites. Tudo usa terras raras.
E aqui vem o problema: a China domina esse mercado. A maior parte da mineração global. Mas o dado assustador é outro: praticamente todo o refino mundial é feito por empresas chinesas. E quase todos os ímãs permanentes também são fabricados na China.
Em outras palavras: se amanhã tiver uma crise entre China e Estados Unidos por causa de Taiwan, Pequim pode simplesmente cortar o fornecimento de terras raras. E aí metade da indústria de defesa americana trava. Literalmente.
A Groenlândia tem terras raras (muitas)
Agora liga os pontos. A Groenlândia tem dois depósitos gigantescos de terras raras: Kvanefjeld e Tanbreez. Kvanefjeld é um dos maiores do mundo. Tanbreez pode ser ainda maior.
Em 2018, uma empresa chinesa chamada Shenghe Resources comprou participação no projeto Kvanefjeld. E assinou memorando para liderar o processamento dos minerais extraídos.
Washington viu isso e pensou: não, péra aí. Se a China já domina o refino global e ainda controla as terras raras da Groenlândia, o monopólio fica ainda mais consolidado. E aí sim estamos sem saída.
Mas tem um problemão: minerar lá é caríssimo
Aqui entra a realidade prática. Minerar na Groenlândia não é simplesmente furar o chão e pegar o minério. É brutalmente difícil.
A maior parte da ilha está coberta de gelo. Não tem estrada. Não tem ferrovia. Não tem porto adequado na maioria dos lugares. O terreno é montanhoso. O clima é extremo. Imagine construir uma mina em condições onde a temperatura pode cair para dezenas de graus abaixo de zero.
Especialistas estimam que minerar na Groenlândia pode custar várias vezes mais do que em outras regiões. Um analista do Arctic Institute soltou uma frase ótima: ‘Você poderia minerar na Lua. Em alguns aspectos, seria mais fácil que na Groenlândia.’
Atualmente, apenas dois projetos de mineração estão ativos. E levaram anos para sair do papel. Ter o minério não significa ter acesso prático a ele.
Os groenlandeses não querem ser americanos
Tem um detalhe importante: a grande maioria dos groenlandeses rejeita virar parte dos Estados Unidos. Uma pesquisa recente mostrou isso claramente. Apenas uma pequena fração é a favor.
O primeiro-ministro da Groenlândia foi direto: a Groenlândia não é mercadoria. É um povo.
Mas tem nuance. O governo groenlandês quer independência em relação à Dinamarca. E para ter independência, precisa de dinheiro. E para ter dinheiro, precisa desenvolver a economia. E para desenvolver a economia, precisa de mineração.
Recentemente, o governo groenlandês sinalizou que vai priorizar parcerias com Estados Unidos, Europa e Japão. Não com a China. É geopolítica pura. A Groenlândia está jogando o jogo: usando sua posição estratégica para negociar.
Tem um detalhe importante: a grande maioria dos groenlandeses rejeita virar parte dos Estados Unidos. Uma pesquisa recente mostrou isso claramente. Apenas uma pequena fração é a favor.
O primeiro-ministro da Groenlândia foi direto: a Groenlândia não é mercadoria. É um povo.
Mas tem nuance. O governo groenlandês quer independência em relação à Dinamarca. E para ter independência, precisa de dinheiro. E para ter dinheiro, precisa desenvolver a economia. E para desenvolver a economia, precisa de mineração.
Recentemente, o governo groenlandês sinalizou que vai priorizar parcerias com Estados Unidos, Europa e Japão. Não com a China. É geopolítica pura. A Groenlândia está jogando o jogo: usando sua posição estratégica para negociar.
Os Estados Unidos já estão investindo (nos bastidores)
Enquanto Trump fala em comprar a Groenlândia, o governo americano está fazendo movimentos mais discretos.
Recentemente, o Banco de Exportação e Importação dos EUA ofereceu financiamento significativo para a mina Tanbreez. Se aprovado, seria o primeiro investimento da administração Trump em mineração no exterior.
Há alguns anos, Washington e Nuuk assinaram memorando para levantamento conjunto de recursos minerais. Biden não renovou. Com Trump de volta, a história mudou. Empresas americanas próximas ao governo intensificaram negociações.
A estratégia não é anexar território. É garantir controle econômico sobre os recursos através de investimento direto e parcerias de longo prazo.
A Europa está no meio do fogo cruzado
A situação da Europa é delicada. A Groenlândia pertence à Dinamarca. E a Dinamarca é membro da OTAN, aliança liderada pelos Estados Unidos.
Quando Trump fala em usar força militar para controlar a Groenlândia, está ameaçando território de um aliado da OTAN. Isso cria constrangimento diplomático gigantesco.
Mas ao mesmo tempo, a União Europeia também quer acesso aos minerais groenlandeses. Recentemente, Bruxelas designou um projeto de grafite na Groenlândia como Projeto Estratégico. A Europa também está investindo lá.
O que realmente está em jogo
No século XIX, potências europeias disputavam colônias na África e Ásia. No século XX, foi petróleo no Oriente Médio. No século XXI, é o Ártico.
Porque o Ártico tem tudo. Rotas marítimas que encurtam distâncias. Bases militares estratégicas. Minerais críticos. Petróleo. Gás. E a Groenlândia é a peça central desse tabuleiro.
Os Estados Unidos querem garantir acesso aos minerais, vigiar o Ártico e impedir que adversários dominem as rotas do norte. A China quer acesso aos minerais, participação no desenvolvimento ártico e expansão de presença em mais uma região estratégica. A Rússia quer manter influência no Ártico, que considera parte de sua zona de interesse.
E a Groenlândia? Quer independência política e desenvolvimento econômico. Mas sem criar dependência de nenhuma potência.
Quando Trump declara intenção de adquirir a Groenlândia, não está fazendo proposta comercial. Está sinalizando para outras potências: esta ilha está dentro da zona de influência americana.
A mensagem para Dinamarca e Europa é igualmente clara: vocês não têm capacidade militar para defender a Groenlândia sozinhos. Ou aceitam liderança americana, ou outras potências tentarão preencher o vácuo.
Enquanto isso, o gelo continua derretendo. A cada verão, mais rotas se abrem. Mais minerais se tornam acessíveis. E a competição pela Groenlândia se intensifica.

