A Internet Por Um Fio

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Panorama 360 – Eduardo Ferreira Lima

A Internet Por Um Fio

A Ilusão da Nuvem

Você já parou para pensar no que aconteceria se a internet simplesmente parasse de funcionar? Não uma queda temporária do Wi-Fi, não um apagão elétrico local. Um colapso total das comunicações digitais que conectam continentes inteiros. Bancos offline. Bolsas de valores congeladas. Sistemas militares cegos. Bilhões de dólares evaporando a cada minuto.

Parece ficção científica. Mas a infraestrutura que sustenta a internet global é muito mais frágil do que você imagina. E está literalmente debaixo d’água.

 O Mundo Invisível Sob Os Oceanos

Quando você abre o Instagram, envia um e-mail ou assiste a um vídeo no YouTube, provavelmente imagina que esses dados estão voando pelo ar através de satélites orbitando o planeta. É uma imagem reconfortante e tecnológica. Também é completamente errada.

Cerca de 99% de todo o tráfego de internet entre continentes passa por cabos submarinos. Não satélites. Não nuvens mágicas. Cabos físicos de fibra óptica, muitos com a espessura de uma mangueira de jardim, que cruzam o fundo dos oceanos conectando países, continentes e economias.

Esses cabos são a espinha dorsal invisível da globalização digital. Eles transportam desde mensagens de WhatsApp até transações financeiras de trilhões de dólares, passando por dados militares estratégicos e operações de inteligência. E você provavelmente nunca ouviu falar deles.

Hoje tem cerca de 600 cabos submarinos em operação ou em construção, somando mais de 1,4 milhão de quilômetros de extensão. É como se a gente tivesse dado mais de 30 voltas ao redor da Terra com fibra óptica. Os cabos mais modernos já transmitem acima de 400 terabits por segundo, o equivalente a dezenas de milhões de vídeos em alta definição ao mesmo tempo.

Satélites não chegam nem perto dessa capacidade. E são muito mais lentos: o sinal precisa subir milhares de quilômetros, bater no satélite e voltar. Cabos são mais rápidos, mais baratos e carregam infinitamente mais dados. Por isso a internet não tá nas nuvens. Tá no fundo do mar.

E tem outro detalhe que a maioria não percebe: muitas das rotas atuais mapeiam quase exatamente sobre as rotas dos cabos telegráficos do século XIX. O primeiro cabo transatlântico funcional foi instalado em 1866. A internet moderna, em grande medida, segue um desenho geográfico que já tinha sido traçado no auge do Império Britânico.

Geografia É Destino (Mesmo No Mundo Digital)

A distribuição desses cabos não é aleatória. Ela revela muito sobre poder, influência e vulnerabilidade no século XXI.

Os cabos precisam sair do mar e chegar a terra firme em algum lugar. Esses pontos de aterrissagem, como são chamados, ficam em praias, cidades costeiras e instalações portuárias. E são extraordinariamente concentrados. Regiões inteiras dependem de meia dúzia de pontos de entrada pra toda a sua conectividade internacional.

Os Estados Unidos controlam ou influenciam boa parte dos cabos que saem da América do Norte em direção à Europa e à Ásia. A China está investindo bilhões na construção de novos cabos que conectam a Ásia à África e ao Oriente Médio, criando rotas alternativas ao controle ocidental. A Europa depende criticamente de cabos que passam por pontos de estrangulamento geográficos como o Estreito de Gibraltar e o Canal da Mancha.

E aqui tá a parte contraintuitiva: quanto mais um país depende de comunicações digitais, mais vulnerável ele é. Porque toda essa dependência passa por fios físicos, em locais específicos, que qualquer ator com capacidade submarina pode atingir.

A grande ilusão da era digital é que a geografia não importa mais. Que distância e localização física se tornaram irrelevantes. A verdade é o oposto.

Quando Os Cabos São Cortados: Não É Teoria Da Conspiração

Você pode estar pensando: “mas quem iria atacar cabos no fundo do oceano? Isso parece paranoia geopolítica.” Se fosse paranoia, países não investiriam bilhões pra proteger e monitorar essa infraestrutura.

Os cabos submarinos são cortados com surpreendente frequência. Estima-se entre 150 e 200 interrupções por ano no mundo todo. A maioria é causada por âncoras de navios arrastando no fundo e por equipamentos de pesca. Juntos, âncoras e pesca respondem por cerca de 70 a 80% de todos os danos. Mas nem todos os cortes são acidentais.

Em fevereiro de 2023, dois cabos que forneciam internet às ilhas Matsu, em Taiwan, foram rompidos em menos de uma semana. Cerca de 13 mil moradores ficaram praticamente sem conectividade por volta de 50 dias. Os cabos tinham sido atingidos por embarcações chinesas, uma de pesca e um cargueiro.

Em novembro de 2024, dois cabos no Mar Báltico foram rompidos em menos de 24 horas: um conectando Suécia e Lituânia, outro ligando Finlândia e Alemanha. Os dois cruzavam a rota do Yi Peng 3, um cargueiro chinês com capitão russo, que tinha saído de um porto russo dias antes. As investigações apontaram pra uma âncora arrastada de propósito sobre os cabos.

No Natal de 2024, outro episódio. Dessa vez, o Eagle S, petroleiro associado à chamada “frota sombra” russa, arrastou a âncora por cerca de 100 quilômetros no fundo do Báltico, rompendo um cabo de energia e vários cabos de dados entre Finlândia e Estônia.

Em março de 2024, quatro cabos submarinos na costa oeste da África foram rompidos quase ao mesmo tempo. Mais de uma dezena de países ficaram com a conexão degradada, entre eles Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Libéria, Benin e Camarões. Dois meses depois, em maio, a África Oriental viveu o mesmo enredo: Quênia, Tanzânia, Moçambique, Ruanda, Uganda e Malawi foram afetados quando cabos na costa da África do Sul foram danificados.

E aqui tá o detalhe importante: quando você corta um cabo na Europa, o impacto é relativamente pequeno. Porque a Europa tem redundância, dezenas de cabos alternativos, e o tráfego é automaticamente redirecionado.

Mas quando você corta cabos na África, em ilhas do Pacífico ou em regiões com pouca infraestrutura, o país inteiro pode ficar offline. Porque não tem plano B. Bancos param de funcionar. Hospitais perdem acesso a sistemas. Comunicações de emergência falham. Você corta a internet, você paralisa um país.

E reparar um cabo no fundo do oceano é caro e lento. Cada reparo custa em torno de 1 a 2 milhões de dólares, e o mundo inteiro dispõe de cerca de 60 navios especializados no serviço. Esses navios passam boa parte do tempo construindo cabos novos, não consertando os velhos. O resultado é que um cabo rompido pode levar semanas ou meses pra voltar. Enquanto isso, o tráfego precisa ser desviado, quando há pra onde desviar.

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A Nova Guerra Fria Tá Acontecendo No Fundo Do Mar

As grandes potências sabem exatamente onde estão esses cabos. Mapeiam. Vigiam. E, em alguns casos, interferem.

A Rússia desenvolveu capacidades específicas pra operar em grandes profundidades. A unidade militar GUGI, a Direção Principal de Pesquisa em Águas Profundas, opera oficialmente como “pesquisa oceanográfica”. Na prática, espionagem submarina. Seu navio mais conhecido, o Yantar, tem cerca de 108 metros de comprimento e carrega minisubmarinos capazes de descer a milhares de metros. Ele pode mapear com precisão onde cada cabo passa.

E o Yantar tem sido visto em lugares estrategicamente sensíveis. Em 2015, perto da costa de Cuba, onde cabos internacionais chegam próximos à base americana de Guantánamo. Em 2020, perto dos cabos submarinos na costa do Rio de Janeiro, onde desligou os sistemas de identificação quando questionado pela Marinha brasileira. Em 2021, na costa da Irlanda, seguindo a rota de cabos transatlânticos. Em janeiro de 2025, voltou a ser detectado em águas britânicas, e a Marinha do Reino Unido mandou um submarino subir à superfície bem na frente dele, como aviso.

E por que a Rússia faz isso? Porque depende muito menos de cabos submarinos do que o Ocidente. É um país continental, com conexões terrestres pra Europa e Ásia. Pode investir em conhecer a infraestrutura dos outros sem sofrer tanto em retaliação. É uma vulnerabilidade assimétrica.

A China joga outro jogo. Empresas chinesas, como a HMN Technologies, estão construindo cabos pelo mundo todo, especialmente na África, na Ásia e na América Latina. E quem constrói o cabo tem acesso privilegiado ao cabo, com possibilidade de monitorar dados e criar dependência.

Os Estados Unidos, por sua vez, têm programas classificados de monitoramento e, possivelmente, de escuta dos dados que passam por esses cabos. Edward Snowden revelou que a NSA tinha operações específicas pra interceptar comunicações em pontos de chegada de cabos submarinos. Quem controla a infraestrutura física tem vantagens que a criptografia nem sempre consegue superar.

Num cenário hipotético de conflito, um ataque coordenado a cabos em pontos de estrangulamento, como Gibraltar, o Canal da Mancha ou a costa da Irlanda, poderia desconectar países inteiros e paralisar comunicações militares antes de qualquer míssil ser disparado. E, como vimos, o reparo pode levar semanas ou meses.

Estamos vivendo uma era em que a guerra pode começar com uma operação silenciosa no fundo do oceano, que deixa um país digitalmente isolado antes mesmo de perceber que está sob ataque.

Big Tech: Os Novos Donos Do Fundo Do Mar

Aqui tá algo que deveria preocupar mais governos: empresas privadas de tecnologia hoje controlam mais capacidade de cabos submarinos do que muitos países.

Google, Meta, Microsoft e Amazon deixaram de apenas alugar capacidade em cabos de terceiros. Construíram os próprios cabos. Em 2014, as quatro maiores Big Techs usavam cerca de 10% da capacidade internacional em operação. Em 2024, esse número chegou a mais de 70%.

O Google, sozinho, é dono ou coproprietário de cerca de 33 cabos submarinos, incluindo rotas que cruzam o Pacífico e o Atlântico. A Meta acabou de entregar o 2Africa, um cabo único de cerca de 45 mil quilômetros que conecta 33 países entre Ásia, Oriente Médio, África e Europa. É o maior já construído. Em fevereiro de 2025, a Meta anunciou o Waterworth, um cabo que pretende dar literalmente a volta ao planeta, com um orçamento estimado em 10 bilhões de dólares.

Por que essas empresas estão fazendo isso? Porque dependem dessa infraestrutura pra sobreviver. Só o YouTube representa uma fatia enorme do tráfego global. Ter controle direto sobre os cabos é questão de sobrevivência competitiva e, cada vez mais, de viabilizar data centers de IA espalhados pelo mundo.

Mas pense nas implicações políticas: quando empresas privadas controlam a infraestrutura crítica de comunicação global, quem realmente tem poder? Governos ou corporações?

Se amanhã o Google decidir priorizar seu próprio tráfego em detrimento de serviços concorrentes ou governamentais, quem poderia impedir? Se a Meta decidir restringir acesso em um cabo que controla durante uma crise geopolítica, que alavancagem um governo teria?

Estamos vendo a privatização de uma infraestrutura que, no passado, seria considerada essencial demais pra ficar em mãos privadas. E isso tá acontecendo sem grande debate público.

E o Brasil Nisso Tudo?

Agora que você já entendeu o cenário global, cabos vulneráveis, potências mapeando, Big Techs comprando infraestrutura, vamos falar do Brasil. Porque a situação aqui é um caso de estudo em concentração de risco.

Vamos falar de um lugar que a maioria associa a praias bonitas e turismo: Fortaleza, no Ceará. O que poucos sabem é que Fortaleza é o principal ponto de entrada de cabos submarinos internacionais no Brasil. A maior parte do tráfego internacional de internet do país passa por ali. Cabos que conectam Brasil aos Estados Unidos (BRUSA, Monet, Seabras-1), à Europa (EllaLink) e à África (SACS, SAIL) aterrissam nessa cidade. É uma concentração impressionante de infraestrutura crítica em um único ponto geográfico.

Essa concentração não é acidental. É resultado de decisões econômicas (Fortaleza está geograficamente bem posicionada pra cabos vindos da Europa e da África), regulatórias (facilidade de licenciamento) e históricas (infraestrutura já existente atrai mais infraestrutura). Mas do ponto de vista de segurança nacional, é uma fragilidade evidente. Se algo acontecer com esses cabos, seja um ataque deliberado, um desastre natural ou mesmo um acidente, o Brasil fica parcialmente isolado. Empresas perdem conexão com matrizes internacionais. Operações financeiras entram em colapso. Sistemas governamentais ficam vulneráveis.

E não é paranoia pensar em ataque deliberado. Lembra do Yantar? Em 2020, o navio espião russo foi detectado perto de cabos submarinos na costa do Rio de Janeiro. Quando a Marinha brasileira tentou questionar, a tripulação deu respostas evasivas e desligou os sistemas de identificação. A Rússia já mapeou a infraestrutura submarina brasileira.

O Brasil tem uma posição geográfica que deveria ser uma vantagem estratégica. Tá no caminho natural de cabos que conectam a América do Norte à América do Sul, e de cabos que conectam as Américas à África. Mas transformar geografia em poder exige infraestrutura, planejamento e visão de longo prazo.

A concentração em Fortaleza é um risco que nunca foi adequadamente tratado. Não tem redundância suficiente. Não tem diversificação geográfica robusta. Não tem um plano público de resposta a interrupções em larga escala. Outros países da região, como Argentina e Chile, começam a atrair investimentos em novos cabos oferecendo incentivos regulatórios e segurança jurídica. Enquanto isso, o Brasil continua dependente de decisões tomadas por empresas estrangeiras sobre onde e como investir.

O Mundo Não É Plano (e Nunca Foi)

O mundo digital que você vê na tela do celular só existe porque tem uma vasta rede física de cabos, estações repetidoras, centros de dados e infraestrutura energética mantendo tudo funcionando. Essa infraestrutura está concentrada em lugares específicos, controlada por atores específicos e vulnerável a ameaças muito concretas.

Os cabos precisam passar por lugares específicos. Precisam chegar a terra firme em pontos vulneráveis. Precisam ser protegidos, mantidos e vigiados.

Quem controla esses pontos controla o fluxo de informação. E quem controla o fluxo de informação tem poder.

A internet não está nas nuvens. Está no fundo do mar. E as decisões sobre quem pode ou não acessar essa infraestrutura estão sendo tomadas agora, longe dos holofotes, moldando silenciosamente o equilíbrio de poder do século XXI.

Eduardo Ferreira Lima é criador do Panorama 360, onde explora a intersecção entre geopolítica, inteligência artificial e poder.

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