A China está apenas voltando

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Panorama 360 – Eduardo Ferreira Lima

A China está apenas voltando

O Ocidente dominou 200 anos. A China dominou 1800. E agora os números provam o retorno.

Muita gente se espanta com o crescimento chinês. Analistas debatem se a China vai superar os Estados Unidos. Governos ocidentais se preocupam com a “ascensão” chinesa.

Mas aqui tem um detalhe que muda tudo.

A China não está subindo. Está voltando.

Em 1820, a China representava um terço da economia mundial. Um terço. Pense nisso por um segundo. Hoje, depois de décadas de crescimento explosivo que impressiona todo mundo, a China ainda não voltou a esse tamanho. E aqui vem a pergunta que quase ninguém faz: se a China foi tão dominante por tanto tempo, o que aconteceu? Por que ela caiu? E por que está retomando esse espaço agora?

A resposta para essas perguntas muda completamente como você entende a geopolítica atual. Porque quando você descobre que a China foi a maior economia do mundo em 18 dos últimos 20 séculos, segundo dados do historiador econômico Angus Maddison, o “crescimento chinês” deixa de ser uma novidade ameaçadora e vira algo muito mais interessante: um reequilíbrio histórico. Porque os últimos 200 anos, quando o Ocidente dominou o mundo, foram a exceção, não a regra. E agora a regra está se restabelecendo.

Por Que a China Desapareceu da Nossa História

Se a China foi tão dominante por tanto tempo, por que quase ninguém sabe disso? Por que quando você fala “China, maior economia do mundo por milênios”, as pessoas ficam surpresas? Tem dois motivos, e os dois são reveladores sobre como a gente entende o mundo.

O primeiro motivo é que a China nunca foi expansionista. Isso pode soar estranho, mas pense bem: enquanto Portugal, Espanha, Inglaterra, França e depois os Estados Unidos saíam pelo mundo impondo sua cultura, colonizando, construindo impérios, a China simplesmente ficava lá. Gigantesca. Produzindo. Comercializando através da Rota da Seda. E ignorando o resto. Por quê? Porque a mentalidade chinesa era clara: nós somos o Império do Meio, o centro do mundo civilizado, todo mundo ao redor é bárbaro. E olha, não era arrogância vazia, era fato comprovável.

Quando a Europa estava na Idade Média, com feudalismo, analfabetismo generalizado, peste bubônica matando um terço da população, a China tinha cidades com mais de um milhão de habitantes, sistemas de irrigação sofisticados e uma burocracia estatal milenar baseada em meritocracia. Enquanto reis europeus mal sabiam ler, a China tinha exames imperiais que selecionavam funcionários públicos baseados em conhecimento de filosofia, história e poesia. Você não herdava cargo porque seu pai era nobre. Você conquistava cargo porque estudou. Era um sistema surpreendentemente moderno para a época.

Então a China não saiu pelo mundo colonizando, não impôs sua cultura pela força, simplesmente ficou lá, gigantesca, se bastando. E isso fez com que a China não entrasse na narrativa ocidental da história. Porque quem escreveu a história que a gente aprende nas escolas? O Ocidente.

E aqui entra o segundo motivo. Nós, ocidentais (e isso inclui o Brasil), conhecemos muito pouco da história da Ásia. Pensa na sua educação, como você aprendeu história: pré-história, depois vem Egito, Mesopotâmia, Oriente Médio, e aí dobramos à esquerda. Grécia. Roma. Idade Média. Renascimento. Descobrimentos. Novo Mundo. Nunca dobramos à direita. Nunca fomos para a Ásia, nunca estudamos as dinastias chinesas em profundidade, nunca estudamos os impérios indianos, nunca estudamos o Sudeste Asiático além de menções superficiais.

É como se a história do mundo fosse: Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, Europa, América, e acabou. A Ásia simplesmente não entra. Então a gente cresce achando que a história da humanidade é a história do Ocidente, que o progresso começou na Grécia, passou por Roma, renasceu na Europa e culminou nos Estados Unidos. Mas isso é uma narrativa parcial, é a história contada por quem ganhou os últimos 200 anos. Porque se você olha para os últimos 2 mil anos, a história da humanidade é principalmente a história da Ásia.

O Domínio Milenar

Deixa eu te situar no tempo, porque isso é importante para entender o que está acontecendo agora. Durante quase dois milênios, China e Índia eram os gigantes econômicos do planeta, somadas tinham mais da metade da riqueza mundial. Não foi um momento isolado, não foi uma década de sorte, foi a norma por séculos e séculos.

A China inventou a pólvora. Inventou o papel. Inventou a imprensa de tipos móveis cerca de 400 anos antes de Gutenberg (o inventor chinês Bi Sheng desenvolveu a técnica por volta de 1040, enquanto Gutenberg só faria algo similar em 1440). Tinha cidades gigantescas quando Londres era uma vila, tinha a maior frota naval do mundo. E sabe o que é mais interessante? Tem um caso histórico que mostra perfeitamente a mentalidade chinesa da época.

No início do século 15, o almirante Zheng He comandou expedições gigantescas para a China. Navios enormes, com centenas de tripulantes, que chegaram até a costa da África entre 1405 e 1433. Pensa no que isso significa: a China tinha capacidade tecnológica e recursos para fazer exatamente o que Portugal e Espanha fizeram décadas depois. Poderia ter colonizado, poderia ter dominado rotas marítimas, poderia ter imposto sua cultura pelo mundo. Mas não fez.

Por quê? Porque o imperador decidiu que essas expedições eram desperdício de recursos, que a China não precisava do resto do mundo, que o Império do Meio se bastava. E aí queimaram os navios, proibiram novas expedições, e a China voltou a olhar para dentro. Enquanto isso, Portugal e Espanha saíram explorando, colonizando, dominando, e escrevendo a história que a gente aprende nas escolas. A história onde os europeus são os heróis, os exploradores, os descobridores. E a China? A China simplesmente não aparece nessa narrativa.

[MAPA SUGERIDO: Expedições de Zheng He (1405-1433) comparadas com rotas posteriores de Portugal e Espanha]

A Queda

Mas aí alguma coisa mudou, e mudou rápido. A Revolução Industrial começou na Inglaterra por volta de 1760 com máquinas a vapor, teares mecânicos, produção em massa, ferrovias. E em poucas décadas, a Europa ultrapassou a Ásia. Não porque a China parou de produzir, mas porque a Europa começou a produzir numa escala que nunca tinha existido antes. E aqui está o detalhe que muda tudo: a Revolução Industrial não foi só tecnológica, foi militar. Porque quem tinha máquinas a vapor tinha navios de guerra a vapor, quem tinha indústria pesada tinha canhões melhores, quem tinha ferrovias conseguia mover tropas mais rápido.

E aí veio o momento mais humilhante da história chinesa moderna: as Guerras do Ópio. Entre 1839 e 1860, a Grã-Bretanha invadiu a China não para colonizar diretamente, mas para forçar o governo chinês a abrir os portos para o comércio britânico. E qual era o produto que a Grã-Bretanha queria vender? Ópio. Isso mesmo, a maior potência industrial do mundo estava traficando drogas para a China, e quando o governo chinês tentou proibir, a Grã-Bretanha declarou guerra e ganhou facilmente.

A China perdeu Hong Kong, foi obrigada a abrir dezenas de portos, foi forçada a aceitar tratados que davam privilégios extraterritoriais para europeus em solo chinês (europeus podiam viver na China e não se submeter às leis chinesas). Foi o começo do que os chineses chamam de “Século da Humilhação”. Porque depois da Grã-Bretanha vieram a França, a Alemanha, a Rússia, o Japão, todos querendo um pedaço da China. E a China, que tinha sido a maior economia do mundo por milênios, virou semicolônia.

E aqui está o detalhe psicológico que o Ocidente não entende completamente: para a China, isso não foi só uma derrota militar, foi uma humilhação existencial. Imagine você ser o Império do Meio, o centro do mundo civilizado, superior a todos por milênios, e de repente uns “bárbaros” do oeste aparecem com navios melhores, canhões melhores, e te obrigam a aceitar tratados degradantes. Isso marcou a psique chinesa de uma forma profunda e explica muito do comportamento chinês hoje. Explica por que a China reage tão mal quando alguém questiona Taiwan, Hong Kong ou Tibete. Explica por que a China não aceita subordinação aos Estados Unidos. Explica por que a China investe trilhões em infraestrutura global. Porque para a mentalidade chinesa, os últimos 200 anos não foram progresso ocidental, foram humilhação chinesa.

Mas a humilhação não parou nas Guerras do Ópio. Em 1937, o Japão invadiu a China com brutalidade sistemática: o Massacre de Nanquim deixou centenas de milhares de civis mortos em semanas, a guerra sino-japonesa matou milhões de chineses, destruiu cidades inteiras e arrasou uma economia já combalida. E quando a Segunda Guerra Mundial acabou, a China não teve paz, veio a Guerra Civil entre comunistas e nacionalistas, Mao venceu e em 1949 fundou a República Popular da China.

E aqui começa um período que aprofundou ainda mais a queda econômica. Mao implementou políticas de industrialização acelerada e coletivização agrícola. O Grande Salto Adiante, entre 1958 e 1962, tentou transformar a China numa potência industrial rapidamente através de metas extremamente ambiciosas. O resultado foi uma crise de abastecimento generalizada: a combinação de coletivização agrícola com metas de produção industrial criou desequilíbrios severos na economia, e dezenas de milhões de pessoas morreram de fome nesse período (uma das maiores crises humanitárias do século 20, segundo estudos demográficos).

Depois veio a Revolução Cultural entre 1966 e 1976, um movimento de reorganização política e social que fechou universidades, interrompeu a educação formal de uma geração inteira e isolou ainda mais a China do resto do mundo. Quando Mao morreu em 1976, a China estava economicamente estagnada, o PIB per capita chinês era menor que o da Índia, menor que o de boa parte da África. A China tinha caído do topo absoluto para uma das economias mais pobres do planeta.

[GRÁFICO SUGERIDO: PIB per capita da China de 1800 a 1980, mostrando a queda acentuada]

A Virada

E aí apareceu um cara que mudou tudo: Deng Xiaoping. Ele não era carismático, não era alto, não fazia discursos inflamados, mas tinha uma característica rara em líderes políticos: pragmatismo absoluto. Em 1978, Deng assumiu a liderança da China e fez algo revolucionário para um país comunista: abandonou a ortodoxia ideológica. Ele disse uma frase que virou famosa: “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace ratos.” Traduzindo: não importa se a economia é capitalista ou comunista, importa se funciona.

E aí começou a abertura econômica que transformaria a China nas décadas seguintes. Deng criou Zonas Econômicas Especiais como Shenzhen, Zhuhai e Xiamen, áreas onde empresas estrangeiras podiam investir, contratar, produzir, com incentivos fiscais e regras diferentes do resto do país (experimentos controlados de capitalismo em solo comunista). Shenzhen é o exemplo mais impressionante: era uma vila de pescadores em 1979, hoje é uma metrópole com mais de 17 milhões de pessoas, virou o centro tecnológico da China, a capital do hardware global, praticamente todo eletrônico que você tem em casa tem componentes que passaram por Shenzhen.

Deng também permitiu que camponeses vendessem excedentes no mercado, permitiu pequenas empresas privadas, atraiu investimento estrangeiro em massa. E a China começou a crescer com taxas de dois dígitos por três décadas consecutivas (nenhum país grande na história moderna cresceu tão rápido por tanto tempo). Entre 1978 e 2015, a China tirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema segundo dados do Banco Mundial, é o maior processo de redução de pobreza da história humana em uma única geração. Construiu dezenas de milhares de quilômetros de trem de alta velocidade (mais que o resto do mundo inteiro somado), ergueu cidades inteiras em menos de uma década, e em 2010 ultrapassou o Japão como segunda maior economia do mundo.

[FOTO SUGERIDA: Shenzhen 1980 vs 2020, mostrando a transformação de vila para metrópole]

Os Números da Retomada

Agora deixa eu te mostrar algo que vai deixar claro por que eu estou te contando essa história toda. Porque quando a gente fala que a China está retomando sua posição histórica, não é retórica, não é opinião, são fatos concretos, são números que você pode verificar. E os números são impressionantes.

Vamos começar por inteligência artificial, a tecnologia que todo mundo diz que vai definir o século 21. Em 2023, segundo o Stanford AI Index Report, a China ultrapassou os Estados Unidos em número de citações de papers de IA (os pesquisadores chineses não só publicam mais, são mais citados, estão na fronteira do conhecimento). E não é só quantidade acadêmica, é aplicação comercial: Baidu, Alibaba e Tencent têm modelos próprios de linguagem competindo diretamente com GPT e Claude, todas com bilhões de usuários testando e refinando esses modelos em tempo real. A China não está copiando a corrida de IA, está correndo lado a lado.

Agora vamos para patentes, que é onde você vê concretamente quem está inovando. Em 2022, segundo a WIPO (World Intellectual Property Organization), a China registrou cerca de 1,6 milhão de patentes em um único ano. Para você ter uma ideia da escala: isso é mais que Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e Europa somados. E não são patentes de produtos banais, são patentes em áreas críticas como baterias, painéis solares, semicondutores, biotecnologia, veículos elétricos. A China lidera globalmente em patentes de veículos elétricos, lidera em patentes de energia renovável, lidera em patentes de 5G. Então quando você ouve que a China “só copia” tecnologia ocidental, os números contam outra história.

E de onde vêm essas patentes? De gente, de engenheiros, de cientistas. A China forma cerca de 1 milhão de engenheiros por ano enquanto os Estados Unidos formam cerca de 200 mil. A China tem mais estudantes com PhD em áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia, matemática) que Estados Unidos e Europa juntos segundo dados da NSF (National Science Foundation). E aqui vem o detalhe importante: esses PhDs não estão saindo do país, estão ficando, criando empresas, trabalhando em universidades, desenvolvendo tecnologia localmente. Desde por volta de 2019-2020 a China forma mais PhDs em ciência e engenharia que os Estados Unidos, e essa diferença está aumentando.

Agora vamos para infraestrutura, porque aí você vê concretamente o que esse investimento em gente produziu. A China tem a maior rede de trens de alta velocidade do mundo (cerca de 42 a 45 mil quilômetros dependendo da fonte e do ano, mais que todos os outros países do mundo somados, conectando mais de 300 cidades). Para você ter uma ideia: você consegue ir de Pequim a Xangai (mais de 1.300 km) em cerca de 4h30 de trem. A China tem a maior rede de 5G do mundo com mais de 3 milhões de estações base segundo dados do Ministry of Industry and Information Technology da China (cobertura em praticamente todas as cidades). E pagamento digital? A China é praticamente cashless, Alipay e WeChat Pay processam bilhões de transações por dia enquanto nos Estados Unidos cheque ainda é coisa comum.

E energia renovável, a área que todo mundo diz que vai salvar o planeta? A China produz cerca de 70% dos painéis solares do mundo segundo a IEA (International Energy Agency), domina cerca de 60% da produção de turbinas eólicas e controla a maior parte da cadeia de produção de baterias de lítio (essenciais para carros elétricos). Em 2023, a China adicionou mais capacidade de energia solar que o resto do mundo inteiro junto segundo dados da IEA: cerca de 216 GW instalados pela China contra aproximadamente 135 GW do resto do mundo.

Então quando a gente fala que a China está retomando sua posição histórica, não é porque eu acho, é porque os dados mostram: mais patentes que o resto do mundo, mais PhDs em engenharia, liderança em IA, maior rede de infraestrutura de transporte e comunicação, domínio em energia renovável.

[INFOGRÁFICO SUGERIDO: Comparação China vs Resto do Mundo em Patentes, PhDs STEM, Infraestrutura 5G e Painéis Solares]

Implicações Geopolíticas

Agora, por que eu estou te contando essa história toda? Porque quando você entende que a China dominou por milênios, que nunca foi expansionista porque simplesmente se achava superior e se bastava, e que os últimos 200 anos foram uma anomalia traumática, você entende por que a China age como age hoje. Por que ela reconstrói a Rota da Seda com o Belt and Road Initiative investindo trilhões em infraestrutura na Ásia, África e América Latina. Por que ela investe pesado em portos que não têm retorno comercial imediato mas garantem controle de rotas marítimas por décadas. Por que ela não aceita subordinação aos Estados Unidos em questões de política externa.

Por que ela reage tão mal quando alguém questiona Taiwan, Hong Kong ou Tibete (para a mentalidade chinesa, essas não são questões geopolíticas negociáveis, são questões existenciais ligadas ao trauma da humilhação). Porque para a mentalidade chinesa, os últimos 200 anos foram um desvio, um trauma, um momento em que a China caiu por razões externas: invasões, guerras, imposições coloniais. E agora eles estão simplesmente corrigindo a história. Não é expansionismo no sentido clássico de conquistar territórios e impor cultura, é restauração, é voltar ao que sempre foi.

E aqui está o choque cultural entre Ocidente e China que explica muita tensão geopolítica atual: o Ocidente olha para os últimos 200 anos e pensa “essa é a ordem natural, nós dominamos porque somos mais avançados, mais democráticos, mais inovadores”. A China olha para os últimos 2 mil anos e pensa “os últimos 200 anos foram uma exceção traumática, e agora estamos retomando o normal”. Então quando o Ocidente fala em “ascensão” da China, a China ouve “retorno” da China. Quando o Ocidente fala em “ameaça” chinesa, a China ouve “restauração” chinesa. É um choque de perspectivas temporais: o Ocidente pensa em décadas e ciclos eleitorais, a China pensa em séculos e continuidade civilizacional.

E a Índia?

Agora, tem outro país que está fazendo exatamente a mesma coisa que a China, e por razões muito parecidas: a Índia. A Índia também caiu brutalmente nos últimos 200 anos por causa do colonialismo britânico. A Grã-Bretanha dominou a Índia por quase 200 anos, extraiu riqueza, destruiu indústrias locais propositalmente, desindustrializou o país para transformar a Índia em fornecedora de matéria-prima barata e compradora de produtos industrializados britânicos. Quando a Índia ficou independente em 1947, era um dos países mais pobres do mundo.

Mas aí em 1991 a Índia fez sua própria abertura econômica e começou a crescer (mais devagar que a China, é verdade, mas de forma consistente). E hoje a Índia é a quinta maior economia do mundo segundo FMI e Banco Mundial, passou a França, passou o Reino Unido (justamente o país que a colonizou por dois séculos). E as projeções econômicas mostram que até 2030 a Índia deve ultrapassar o Japão e a Alemanha, vai ser a terceira maior economia do planeta.

Então o que está acontecendo não é só a China retomando posição, é a Ásia inteira. Porque China e Índia juntas dominaram a economia mundial por milênios, e elas estão voltando a esse nível não porque inventaram algo radicalmente novo, mas porque voltaram a fazer o que sempre fizeram: produzir, comerciar, inovar, educar.

Reflexão Final

Então deixa eu resumir o que você aprendeu neste artigo. A China não é uma ameaça inesperada, não é um milagre econômico inexplicável, não é uma aberração geopolítica. A China é simplesmente a história se reequilibrando. Durante a maior parte dos últimos 2 mil anos, China e Índia dominaram a economia mundial. A gente não sabia disso por dois motivos: porque a China nunca foi expansionista (ficou lá, gigante, se bastando) e porque nós, ocidentais, aprendemos muito pouco sobre história asiática.

Aí veio a Revolução Industrial, e em 150 anos o Ocidente dominou, industrializou numa escala sem precedentes, colonizou, e a Ásia afundou. Mas isso não foi permanente, foi um momento, um desvio histórico. E agora os números mostram que a Ásia está retomando o espaço que ocupou por milênios: mais patentes que o resto do mundo, mais PhDs em engenharia, liderança em IA, maior rede de infraestrutura de transporte e comunicação, domínio em energia renovável.

E o Ocidente precisa entender isso. Porque se você acha que o domínio ocidental dos últimos 200 anos é a ordem natural e permanente, você vai interpretar a ascensão chinesa como agressão injustificada. Mas se você entende que os últimos 200 anos foram a exceção na história humana, você entende que o que está acontecendo é um retorno a uma ordem histórica muito mais antiga. O Belt and Road não é imperialismo disfarçado, é reconstrução das rotas comerciais que a China controlou por séculos. O investimento massivo em tecnologia não é roubo de propriedade intelectual, é retomada da liderança em inovação que a China teve por milênios (lembra: pólvora, papel, imprensa). A resistência à hegemonia americana não é agressão ideológica, é recusa em aceitar subordinação depois de 200 anos de humilhação.

Você não precisa gostar da China, você não precisa concordar com o sistema político deles, você não precisa achar que eles estão certos. Mas você precisa entender de onde eles vêm. Porque eles não pensam que estão subindo, eles pensam que estão retomando o que sempre foi deles. E quando você entende isso, você entende que a disputa entre Estados Unidos e China não é simplesmente sobre quem vai dominar o futuro, é sobre quem vai escrever as regras do século 21. E a China não aceita que essas regras sejam escritas exclusivamente pelo Ocidente, porque para eles o Ocidente dominou apenas 200 anos. E 200 anos, na perspectiva de 2 mil anos de história civilizacional, não é nada.